O caso Claudinha e a naturalização do absurdo

Grande parte da sociedade contemporânea acredita ou reproduz conceitos machistas. O machismo é uma concepção de inferioridade da mulher, em que se considera o homem superior e às vezes até se tem aversão a elas (misoginia).

No voleibol, infelizmente não é diferente. Já apontamos diversos motivos e situações em que homens determinam o destino profissional e o quanto vale o trabalho da mulher. E claro, situações semelhantes também acontecem dentro de quadra.

Atitude de Zé Roberto com Claudinha: é normal? (Foto: Felipe Christ/Vôlei Amil)


Não é normal

Em 2014, semifinal da Superliga Feminina, os técnicos das seleções masculina e feminina se enfrentavam: de um lado, o Rio de Janeiro de Bernardinho, do outro o extinto Campinas de José Roberto Guimarães.

Campinas venceu o primeiro set, mas viu o rival crescer nos dois seguintes. E foi justamente no terceiro set que as câmeras da Tv Globo, que transmitia o jogo ao vivo para o Brasil inteiro, captaram as orientações de Zé Roberto à levantadora Cláudia Bueno, mais conhecida como Claudinha, durante um tempo técnico.

Zé Roberto chama a levantadora em particular, fala sobre assumir a responsabilidade e passa orientações técnicas sobre um levantamento invertido (de um lado para o outro da rede) aos gritos. Claudinha ouve em silêncio. Não satisfeito, Zé Roberto põe as mãos na boca e grita para a levantadora “larga de ser burra!”. No ápice de seu profissionalismo, Claudinha não respondeu nada, saiu andando e voltou para o jogo. A equipe de Campinas foi derrotada por 3 a 2 e acabou eliminada. 



A atitude do técnico da seleção feminina do Brasil e de um dos maiores clubes de voleibol do país na época, causou revolta. Através das redes sociais, torcedores se manifestaram condenando a atitude de Zé Roberto.

(reprodução/Uol)

E talvez devesse mesmo! O artigo 5º da Constituição Federal prevê que "são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação". O ato de expor a jogadora a uma situação humilhante, com um xingamento em frente às câmeras, agindo com rigor e ofendendendo Claudinha encaixa-se na infração por danos morais. 

Mas também houve quem naturalizasse e até apoiasse a atitude de Zé Roberto Guimarães, como se fosse "coisa de jogo". Para a psicóloga Jeanyce Araújo, isso não é normal. "As violências que nós mulheres sofremos são invisibilizadas. Eu vejo esse tipo de atitude agressiva como uma forma de violência, não concordo e penso que existem outras maneiras de se reportar a uma mulher ou qualquer outra pessoa", opina. 
 
O caso de Claudinha não é exclusividade. Outros técnicos brasileiros como Bernardinho (Rio de Janeiro) e Paulo de Tarso (ex-Pinheiros) já foram criticados pela agressividade com que falam com as jogadoras. Bernardinho, inclusive, já chegou a proferir a frase “homem é foda” durante um ataque da ponta-oposta Tifanny Abreu, primeira mulher transexual do voleibol brasileiro.

Exemplo histórico

De alguma forma, a agressividade e as ofensas acabaram naturalizadas no voleibol feminino. Diríamos que na base do mau exemplo: o técnico russo Nikolay Karpol, bicampeão olímpico (80 e 88) com a seleção soviética (posteriormente russa). 

Técnico do clube mais famoso da história da Rússia, o VC Uralochka, da cidade de Ecaterimburgo, Karpol é uma lenda do esporte e muito conhecido pela agressividade com suas comandadas. Nem a estrela mundialmente conhecida Liobouv Sokolova escapava das explosões de Karpol. 

Aos 82 anos e ainda em atividade, Nikolai Karpol grita com a sobrecarregada Ksenia Ilchenko Parubets. No Uralochka, jogadora é "faz-tudo" do técnico (Foto: Federação Russa/VFV)


E se fossem homens?

Será que José Roberto Guimarães chamaria um homem de burro? Será que Nikolai Karpol esbravejaria contra os gigantes russos de mais de dois metros? Será que os jogadores brasileiros aceitariam um técnico ofendendo sua capacidade em plena rede nacional?

Podemos provar que não. Quem não se lembra de Sérgio Escadinha xingando Bernardinho durante um jogo da seleção brasileira? Ou de Lorena discutindo agressivamente com Giovane Gávio? Lipe dando "peitada" e partindo para cima de Cézar Douglas? Lorena e Sidão trocando socos com funcionários do Campinas? Eles aceitariam essas posturas?

Comentários

  1. Não, jamais poderemos desrespeitar um ser humano (seja ele quem for), nem homem pra mulher, nem mulher pra homem, cada um com suas falhas, quem não errar, que atire a primeira pedra. Não lembrava desse episódio, e realmente foi um absurdo toda essa a situação, e caberia sim um processo, envolve a autoestima, sentimento e etc, é através disso, que muitos abandonam as atividades (seja ela qual for), se suicidam, toda ação, tem uma reação, isso não pode acontecer de forma nenhuma. A voz do ser humano lutando pelos seus direitos tem que ser ouvida, muito mais das mulheres, que pra muitos são frágeis é fácil de domar/manipular, não, não são. #MulherTemQueSerRespeitadaSempre

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  2. Só uma correção, a Russia não foi campeã mundial em 94,foi Cuba na final contra o Brasil.

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    1. Correto! E o torneio em questão foi sediado aqui.

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  3. Jamais . A mulher e nem homem devem.aceitar esse tipo de atitude.Pecir mais empenho,ser firme mas não gritar assim. Quanto ao Bernardinho,todos conhecem a grosseria dele e vai continuar, se ng denunciar.

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  4. Além do assédio as jogadoras, frequentemente algumas comissões técnicas também assediam os árbitros e juiz de linha. Parabéns Gustavo por levantar essa bandeira!

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  5. Olha sou jogador de vôlei não sou profícional nem armador apenas gosto de jogar vôlei. Sou contra todo tipo de cobranças chinganento etc. Tem os vestiários tem os treinamentos dentro desta ária pode até ter uma cobrança aqui ou ali agora ficar xingando ou agredindo alguém verbamento não vira. Tá puto com alguem e simples só fazer a troca de atleta põw deixe no banco o atleta q não tá respondendo UE. Creio que no ninguém gosta de perder . Todos entrao para ganhar entra para dar o melhor. Pow o treinador pede uma jogada mais por alguma fatalidade a bola não chega como gostaria e em fração de segundo fazemos outras escolhas. Temos q para com isso ficar gritando ou xingando um atleta.

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  6. Então escadinha ofendendo um técnico pode, um técnico ofedendo um jogador é absurdo. Pelo meu entendimento está havendo dois pesos e uma medida. Se não pode para um, não deve poder para outro. Algum técnico já partiu para cima de jogador ou jogadora querendo bater? Acho que não, então não podemos relativisar com o outro lado.

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