Qiuyue Wei: o drama da lesão que custou a carreira de uma campeã olímpica

Por Gustavo Aguiar

Ela saiu do banco para ser decisiva em um dos jogos mais emblemáticos da história da China: a vitória sobre o Brasil por 3 a 2 nas quartas de final da Olimpíada do Rio em 2016. Mas isso custou caro a Qiuyue Wei

Depois da aposentadoria do mito Kun Feng, MVP das olimpíadas de 2004, Wei era a mais promissora levantadora da China. Ela era a aposta e a China ganhava com isso: em 2014, Wei foi vice-campeã mundial e por pouco não levou um título que praticamente ninguém considerava a China como favorita. Mas é exatamente em 2014 que começa o drama de Wei...

Qiuyue Wei (Foto: FIVB)


Após a disputa do Mundial da Itália, foi constatada uma lesão grave no joelho da levantadora de apenas 25 anos. A lesão tirou Wei imediatamente de quadra pelo Tianjin, seu time na China. Ainda em 2014, Wei viajou para os Estados Unidos para passar por uma cirurgia no joelho. Mas a jogadora teve que fazer uma escolha cruel: uma cirurgia paliativa, que só resolveria temporariamente sua lesão ou o tratamento completo, com prazo superior a um ano de recuperação, o que a tiraria de vez dos Jogos Olímpicos. Wei optou pelo seu sonho, fez uma raspagem na lesão e lutou para ir à Rio 2016. Lang Ping segurou o quanto pôde, teve Xia Ding e Jingsi Shen até o último minuto possível entre as relacionadas. Optou por cortar Shen, Wei já entrava em quadra.

Lang Ping apostou no retorno da levantadora, mesmo depois de meses afastada  (Foto: China Daily)


Uma tecnologia especial protegia o joelho direito da levantadora, que seria praticamente incapaz de aguentar toda a maratona olímpica. A tala protegia seu joelho, mas não a assegurava do perigo de uma lesão maior. Wei também sentia o joelho esquerdo e ainda assim, arriscou. Ela esteve lá no último levantamento do jogo entre Brasil e China, onde evocou Zhu em uma pipe, a pipe final, o ponto final. A China carimbava seu passaporte às semifinais.

Wei comemora com companheira no último ponto contra o Brasil (Foto: FIVB)


Quis o destino que Wei, que acabou no banco durante a final, voltasse à quadra para o último ponto. Hui, outra guerreira do ouro chinês, cravou de xeque em um erro de Popovic. Era o final de um sonho, o sonho chinês. No centro da quadra, com a tala de proteção e fitas rosas nos dois joelhos, Wei saltava praticamente sozinha - movimento de quem nem deveria estar fazendo aquilo. Mas ela chegou lá, mesmo quando suas chances de disputar o ouro pareciam perdidas, ela esteve no ouro olímpico e foi decisiva para ele. Saltar, gritar, é tudo que ela poderia e deveria fazer. Mal sabia que aquele seria o seu último jogo pela seleção.

Os saltos de Wei ao centro após a conquista do ouro olímpico  (Foto: FIVB)


A vitória veio, mas a dor cobrou a conta. Wei tentou voltar às quadras, mas não teve condições. O joelho direito inchava constantemente e sangrava internamente. A levantadora precisou passar por várias sessões para "limpar" a lesão e finalmente fazer a cirurgia decisiva. Foram meses de sessões e procedimentos cirúrgicos, o que obrigou a levantadora a declarar oficialmente que deixava as quadras. O ouro olímpico seria seu último grande feito como atleta - mas que maneira maravilhosa de encerrar a carreira, não?

"No princípio eu ainda queria só ficar deitada o dia todo, claro, é chato. Foram muitos dias com uma variedade de táticas para reabilitação, vários instrumentos, meus dias eram agitados. Houve uma tarde em que chorei e adormeci até às nove horas da noite", conta Wei.

Wei em preparação a um procedimento cirúrgico (Foto: Angelika/Sina Sports)


Finalmente, em julho de 2018, Wei recebeu a notícia que sempre esperou: a última cirurgia foi feita e a lesão estava curada. Restavam agora os hematomas e algumas semanas de fisioterapia para que a ex-jogadora estivesse finalmente curada, depois de quatro anos.

Agora, a levantadora de 29 anos está em fase final de recuperação e comenta que nunca imaginou que estaria de fora da seleção. Bem Wei, como diria a célebre "crônica da prata": lágrimas, afinal, não duram uma vida inteira.


Comentários

  1. Lindo documentário Gustavo! Quase chorei lendo esse texto kkkkkk


    To Fly é o melhor blog de volei disparado, amooooooooo

    Wei é muito habilidosa. Wei >>> abismo >>> Ding

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  2. "Depois da aposentadoria do mito Kun Geng" Kun Feng.

    "A China carimbava seu passaporte às quartas de final." à semifinal.

    :)

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    1. To Fly
      Gostaria de saber, aliás é uma dúvida que sempre me questionei, porque vocês não publicam sobre volei de praia (masculino e feminino) e volei masculino? Acharia interessante, não só como leitor mas seria algo enriquecedor para o blog tratar do volei não só feminino de quadras, mas como o masculino e da praia. Temos grandes conquistas em ambos e retratar e acompanhar sobre essas categorias com maestria que vocês retratam ao feminino SL e CBV Feminina seria maravilhoso! Pensem bem se possível!

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    2. Acho que o Gustavo mal tem tempo suficiente para cobrir tudo o que acontece no vôlei feminino mundial. Deve ser por isso que ele não posta também sobre vôlei de praia e masculino de quadra.

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  3. Lindo texto, lembro que gostava muito do estilo de jogo dessa jogadora, principalmente as jogadas por trás que ela fazia com as centrais.
    Mas uma pergunta? Ela está apta a voltar às quadras??

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    1. Ela se aposentou do esporte ano passado.

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    2. Agora que ela está recuperada, vocês acham que a Lang Ping vai deixar ela de fora? Creio que não!

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    3. A vida de um atleta profissional de alto nível é super desgastante, logo acho que ela não volta a jogar vôlei.

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  4. Não duvido que ela volte à tempo para Toquio 2020 kkk

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  5. Que história! Quanto amor ao esporte! Quanto talento! E quanta valorização (da Lang Ping por ela nas olimpíadas)! Magnífico!

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  6. Eu não conhecia esse drama da levantadora. Uma guerreira! Toda sorte para ela, que volte e jogue muito mais do já jogou. A China tem um histórico de jogadoras que lutam para se recuperar. A federação poderia usar a tecnologia com aliada e ter mais precauções com lesões. usar protetores para joelhos e tornozeleiras ( se for permitido). O jogo foi dramático mesmo. Mas o que me chamou mais a atenção foi a técnica e a Zhu. Minha nossa! quanta concentração. Quanto confiança a Lang passava para a Zhu. Acredito que a Lang também ajudou muito a Wei. Eu lembro mais da outra levantadora. Wei é uma heroína diante do que passou.

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  7. Ana Moser estava com os 2 joelhos Podres e jogou uma olimpíada inteira Saltando sem poder

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  8. Além da Hui e da Wei, dentre as campeãs olímpicas a central Xu também se aposentou definitivamente?

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    1. A última notícia que eu vi dela foi há quase um ano quando sofreu uma grave lesão no joelho.

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    2. Sim, ela também jogou as Olimpíadas com lesão no ombro. Ela estava na VNL junto com a Hui na arquibancada assistindo os jogos.

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  9. Que linda história de superação. Mesmo com suas limitações, ela é muito superior a Ding. Melhoras a Wei.

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